agosto 20, 2009



O Livreiro de Cabul
(fragmento)
Asne Seierstad

...Sob a burca eu estava livre para olhar à vontade sem que
ningúem me olhasse. Eu podia observar as outras pessoas
da família fora de casa sem atrair a atenção para mim. O
anonimato tornou-se uma libertação, era o único lugar onde
podia me refugiar, porque em Cabul, praticamente não há
lugar tranquilo para se estar sozinho.
...Também vestia a burca para saber como é ser uma
mulher afegã. Como é espremer-se num dos três bancos
traseiros de um ônibus quando há muitos bancos livres
na frente. Como é dobrar-se no porta-malas de um táxi
porque há um homem no banco de trás.
...Com o tempo comecei a odiá-la. A burca aperta e dá dor
de cabeça, enxerga-se mal através da rede bordada. É
abafada, deixando entrar pouco ar, e logo faz suar. É
preciso tomar cuidado o tempo todo onde pisar, porque não
podemos ver nossos pés, e como junta um monte de lixo,
fica suja e atrapalha. Era um alívio tirá-la ao chegar em
casa.

2 comentários:

Lucy disse...

...impressionante o relato.

Leslie Holanda disse...

Marie,
Não exerce a liberdade.
Não sentir-se livre.
Nos sufoca, nos mata.
Beijos
P.S.É bom ter você de volta.