dezembro 18, 2006


Paciência
Lenine

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)

dezembro 14, 2006




Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé
de Ariana para Dionísio

Hilda Hilst

I
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

....poesia dedicada à um grande amigo, Renato.

dezembro 10, 2006



Cássia Eller
10/12/1962 - 29/12/2001

Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Quem sabe a vida é não sonhar
Eu só peço a Deus um pouco de malandragem
Eu sou poeta e não aprendi a amar...


As coisas tão mais lindas
Nando Reis

Entre as coisas mais lindas que eu conheci
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi
Entre as coisas bem-vindas que já recebi
Eu reconheci minhas cores nela, então eu me vi

Está em cima com o céu e o luar
Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas
E séculos, milênios que vão passar
Água-marinha põe estrelas no mar
Praias, baías, braços, cabos, mares, golfos
E penínsulas e oceanos que não vão secar

E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Hoje você está
Onde você está
As coisas são mais lindas
Por que você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas

dezembro 09, 2006



Hoje é aniversário do Simplesmente Marie
está fazendo 1 aninho de vida
obrigada à todos os amigos que por aqui passaram
e deixaram o seu carinho
beijinhos no coração de cada um de vocês !

Acaso
Antoine de Saint- Exupéry

"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso. "

dezembro 08, 2006




Florbela Espanca

"As almas das poetisas são todas feitas de luz,
como as dos astros: não ofuscam, iluminam"...

8/12/1894, Florbela nasceu
8/12/1913, se casou
8/12/1930, morreu.


Eu
Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

dezembro 07, 2006




Círculos sobre círculos
Leslie Holanda

Rodopio em minhas ilusões
Ando as voltas em possibilidades
Não descarto as brechas, as indagações
As possíveis impossibilidades
Ou sonhos de razões
Giro cantando, dançando em meu viver
Circulo entre os girassóis
Ora a sós, ora sob teus lençóis
Contorno os riscos
Rabisco carrosséis
Imprimo espirais
Reais,efêmeros...vitais

dezembro 06, 2006




Um caso de amor
Flora Figueiredo

A menina viu a lua cheia
derramar-se em prata sobre a areia.
Encantada, esticou-se toda
e desatarraxou a bola
do fundo azul-marinho.
Saiu de mansinho
e guardou a lua em casa
sob uma redoma de cristal.
Sabia que o gato rondaria no quintal, louco de desejo
eterno caçador de ratos e de queijos,
só que a lua, hábil e esperta,
derrubou o cristal
e escorregou pela janela aberta.
Naquela noite, então,
a terra revirou-se de paixão
e o mundo amou como nunca amara antes
estava de volta a lua,
cúmplice dos beijos e segredos dos amantes.

dezembro 05, 2006




Chuva
Ribeiro Couto

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar ? quem o faria? ?
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...

dezembro 04, 2006




Aqui
Sophia de Mello Breyner Andrensen

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu ? eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos

Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

dezembro 01, 2006




Como te amo?
Elizabeth Barrett Browning

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.