março 09, 2008



A Mulher
Florbela Espanca

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

março 02, 2008



Da alegria discreta
Mario Quintana

Longe do mundo vão, goza o feliz minuto
Que arrebataste às horas distraídas.
Maior prazer não é roubar um fruto
Mas sim saboreá-lo às escondidas.

março 01, 2008





Quero te conhecer por outras fontes,
seguir para tua alma por outros caminhos;
nada desejo de tua vida que passou,
nem teu nome, nem teus sonhos,
nem a história do teu sofrimento;
o mistério explica mais que a claridade;
também não indagarás de mim
o que quer que seja; sou Joana,
tu és um corpo vivendo,
eu sou um corpo vivendo,
nada mais.


Perto do Coração Selvagem
Clarice Lispector




Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
– Sou pois um brinquedo a quem dão corda
e que terminada esta não encontrará vida própria,
mais profunda. Procurar tranqüilamente admitir que
talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas.
Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita
para as águas puras e largas, mas para as pequenas
e de fácil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte,
essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça
para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma idéia
– e nada mais.


Perto do Coração Selvagem
Clarice Lispector

fevereiro 06, 2008



Vem sôbre os mares,
Sôbre os mares maiores,
Sôbre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se
agitam muito !

Álvaro de Campos

janeiro 17, 2008



Se não houvesse montanhas!
Cecília Meireles

Se não houvesse montanhas!
Se não houvesse paredes!
Se o sonho tecesse malhas
e os braços colhessem redes!

Se a noite e o dia passassem
como nuvens, sem cadeias,
e os instantes da memória
fossem vento nas areias!

Se não houvesse saudade.
solidão nem despedida...
Se a vida inteira não fosse,
além de breve, perdida!

Eu tinha um cavalo de asas,
que morreu sem ter pascigo.
E em labirintos se movem
os fantasmas que persigo.

dezembro 27, 2007


Eu agi sempre,
Eu agi sempre para dentro
Eu nunca toquei na vida.
Nunca soube como se amava...
Apenas soube como se sonhava amar.
Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos,
É que às vezes eu queria julgar
Que as minhas mãos eram de princesa.
Gostava de ver a minha face refletida,
Porque podia sonhar que era a face de outra criatura.
Extraído do Livro do "Desassossego" de Fernando Pessoa

dezembro 09, 2007



Poesia
Antonio Vieira

A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

Os livros que vieram para cá
O Lunário e a Missão Abreviada
A donzela Teodora e a fábula
Obrigaram o sertão a estudar
De repente começaram a rimar
A criar um sistema todo novo
O diabo deixou de ser um estorvo
E o boi ocupou outros lugares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares


Ultimatum
Álvaro de Campos

Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.

dezembro 02, 2007



Ultra-som
Flora Figueiredo

Transpassei seu lado
opaco,
como se fosse
completamente
transparente.
Não se sinta fraco se
o devassei.
Foi propositadamente.

Até a noite chegar,
já terei terminado de
alterar
sua coloração.
Qualquer um vai ser
então capaz
de divisar
o verdadeiro aspecto
e o lugar
do seu iantingível
coração.