abril 04, 2008




Suavidade
Florbela Espanca

Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão querida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves...

Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves...

março 11, 2008


Simone Soul

Tem de lançar-se alto e mais alto ainda
De galáxia em galáxia.
Arrancar às estrelas as suas notas momentâneas
Roubar música à lua.

(Dorothy Livesay)





Alma,
deixa eu ver sua alma
A epiderme da alma,
superfície...
Abra a sua válvula agora
A sua cápsula alma
Flutua na superfície lisa,
que me alisa, seu suor
O sal que sai do sol, da superfície
Simples, devagar, simples,
bem de leve a alma já pousou,
na superfície.

(Arnaldo Antunes)

março 09, 2008



Mulher
(em definição)
Manuela Amaral

Mulher-Poesia
que deixa no meu corpo bocados de poema
Mulher-Criança
que desce à minha infância
e me traduz adulta
Mulher-Inteira
repartida no meu ser
Mulher-Absoluta
Fonte da minha origem.


A Mulher
Florbela Espanca

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

março 02, 2008



Da alegria discreta
Mario Quintana

Longe do mundo vão, goza o feliz minuto
Que arrebataste às horas distraídas.
Maior prazer não é roubar um fruto
Mas sim saboreá-lo às escondidas.

março 01, 2008





Quero te conhecer por outras fontes,
seguir para tua alma por outros caminhos;
nada desejo de tua vida que passou,
nem teu nome, nem teus sonhos,
nem a história do teu sofrimento;
o mistério explica mais que a claridade;
também não indagarás de mim
o que quer que seja; sou Joana,
tu és um corpo vivendo,
eu sou um corpo vivendo,
nada mais.


Perto do Coração Selvagem
Clarice Lispector




Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
– Sou pois um brinquedo a quem dão corda
e que terminada esta não encontrará vida própria,
mais profunda. Procurar tranqüilamente admitir que
talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas.
Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita
para as águas puras e largas, mas para as pequenas
e de fácil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte,
essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça
para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma idéia
– e nada mais.


Perto do Coração Selvagem
Clarice Lispector

fevereiro 06, 2008



Vem sôbre os mares,
Sôbre os mares maiores,
Sôbre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se
agitam muito !

Álvaro de Campos

janeiro 17, 2008



Se não houvesse montanhas!
Cecília Meireles

Se não houvesse montanhas!
Se não houvesse paredes!
Se o sonho tecesse malhas
e os braços colhessem redes!

Se a noite e o dia passassem
como nuvens, sem cadeias,
e os instantes da memória
fossem vento nas areias!

Se não houvesse saudade.
solidão nem despedida...
Se a vida inteira não fosse,
além de breve, perdida!

Eu tinha um cavalo de asas,
que morreu sem ter pascigo.
E em labirintos se movem
os fantasmas que persigo.

dezembro 27, 2007


Eu agi sempre,
Eu agi sempre para dentro
Eu nunca toquei na vida.
Nunca soube como se amava...
Apenas soube como se sonhava amar.
Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos,
É que às vezes eu queria julgar
Que as minhas mãos eram de princesa.
Gostava de ver a minha face refletida,
Porque podia sonhar que era a face de outra criatura.
Extraído do Livro do "Desassossego" de Fernando Pessoa