setembro 22, 2009



Oh! Primaveras distantes, depois do branco e
deserto inverno, quando as amendoeiras
inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas,
as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas,
entre os humanos, sabem que uma Deusa chega,
coroada de flores, com vestidos bordados de flores,
com os braços carregados de flores,
e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.


Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida
não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita
para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim.
Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem,
no momento que quiserem, independentes deste ritmo,
desta ordem, deste movimento do céu.
E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos,
— e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais
com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

setembro 21, 2009



Quadras
Florbela Espanca

Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.

setembro 09, 2009



Operação alma
Mario Quintana

Há os que fazem materializações...
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivações de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais
puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos. ( Na verdade, a gente nunca
mais se vê...) No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus
na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma
volta ao mundo!

agosto 20, 2009



O Livreiro de Cabul
(fragmento)
Asne Seierstad

...Sob a burca eu estava livre para olhar à vontade sem que
ningúem me olhasse. Eu podia observar as outras pessoas
da família fora de casa sem atrair a atenção para mim. O
anonimato tornou-se uma libertação, era o único lugar onde
podia me refugiar, porque em Cabul, praticamente não há
lugar tranquilo para se estar sozinho.
...Também vestia a burca para saber como é ser uma
mulher afegã. Como é espremer-se num dos três bancos
traseiros de um ônibus quando há muitos bancos livres
na frente. Como é dobrar-se no porta-malas de um táxi
porque há um homem no banco de trás.
...Com o tempo comecei a odiá-la. A burca aperta e dá dor
de cabeça, enxerga-se mal através da rede bordada. É
abafada, deixando entrar pouco ar, e logo faz suar. É
preciso tomar cuidado o tempo todo onde pisar, porque não
podemos ver nossos pés, e como junta um monte de lixo,
fica suja e atrapalha. Era um alívio tirá-la ao chegar em
casa.



Apenas brisa
Ana Viana

Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância.

agosto 19, 2009



Lembrança Alada
Mia Couto

Em alguma vida fui ave.
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

agosto 18, 2009



Teorema da incompletude
Manoel de Barros

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou, eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva, etc, etc,
Perdoai
Mas eu preciso ser outros
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

agosto 17, 2009



Ritmos
Leslie Holanda

Danço...
Quando cai chuva,
Quando o céu fica fechado
Quando há tempestades
Quando tudo é caos
É o ritmo da vida
Por isso...danço

julho 02, 2009



As Estrelas
Mario Quintana

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o Céu!... Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma se me tens amor.

Estrelas altas! Que se importam elas?
Tão longe estão!... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...

Porém meu coração quase parava,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,

Deus a guie! do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!