junho 28, 2010



Rosas
Alphonsus Guimarães

Rosas que já fostes, desfolhadas
Por mãos também que já foram; rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas
Mortas também, beijaram suspirosas...

Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?

junho 26, 2010



Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguém vem...
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
A sombra rendilhada dos vitrais?...
À noite, debruçada pelas ameias,
Por que rezas baixinho?... Por que anseias?...
Que sonhos afagam tuas mãos reais?...

Florbela Espanca


Mas EU, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.

Fernando Pessoa

março 15, 2010



"Não estou doente.
Estou partida.
Mas me sinto feliz
por continuar viva,
enquanto puder pintar".

Frida Kahlo



"(E o que mais dói) é viver num corpo
que é um sepulcro que nos aprisiona
(Segundo Platão) do mesmo modo como
a concha aprisiona a ostra".

Frida Kahlo

dezembro 15, 2009



Já não tenho lágrimas
Cecília Meireles

Já não tenho lágrimas:
estão caídas
longe, em vagas margens,
qual mornas ovelhas
recém-nascidas.

Longe estão caídas,
entre esses montes
de saudades vivas,
de figuras frias,
ai, de que horizontes!

Suspiros montes!
Porém, agora,
talvez não me encontrem.
Pois a alma se esconde,
porque já nem chora.



Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes
é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

(Clarice Lispector)

setembro 29, 2009



No ponto onde o silêncio
Sophia de Mello Breyner

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

setembro 22, 2009



Antes de te conhecer
José Luis Peixoto

Era o teu rosto.
Era a tua pele.
Antes de te conhecer,
existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim,
dentro de mim,
eras tu a claridade.


A Primavera
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras;
e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam
pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera
que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra,
nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão
as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e
já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur.
Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais
de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas
apressam-se pelos ares, — e certamente conversam:
mas tão baixinho que não se entende.